A identificação de riscos é, paradoxalmente, uma das etapas mais subestimadas e mais determinantes de todo o processo de gestão de riscos. Quando mal executada, compromete análises, planos de ação, relatórios executivos e, principalmente, a credibilidade da função de compliance. Quando bem conduzida, cria uma base sólida para decisões estratégicas, priorização inteligente de recursos e fortalecimento da governança.

Este artigo explora técnicas práticas de identificação de riscos, com foco em como fazer, o que realmente importa identificar, o que não deve ser prioridade, como definir as áreas a serem mapeadas e quais resultados são esperados ao final do processo.


Identificação de riscos não é “listar problemas”

Um erro recorrente é confundir identificação de riscos com um exercício livre de levantamento de problemas, fragilidades ou reclamações internas. Risco não é sinônimo de falha operacional, nem toda exceção merece ser tratada como risco relevante.

Risco, no contexto de compliance e governança, deve ser entendido como a possibilidade de um evento afetar negativamente o alcance de objetivos organizacionais, regulatórios, financeiros ou reputacionais.

Esse ponto de partida muda completamente a abordagem. A identificação de riscos não começa no detalhe da operação, mas na compreensão clara dos objetivos, obrigações e expectativas que recaem sobre a organização.


Técnicas eficazes de identificação de riscos

Não existe uma única técnica universal. Organizações maduras combinam métodos, ajustando profundidade e esforço conforme criticidade e contexto.

1. Análise orientada a objetivos e obrigações

Uma das técnicas mais eficientes — e menos utilizadas — é partir dos objetivos estratégicos, operacionais e regulatórios.

Perguntas-chave:

  • Quais objetivos essa área ou processo precisa atingir?
  • Quais obrigações legais, normativas ou contratuais recaem sobre ela?
  • O que acontece se esse objetivo não for alcançado ou a obrigação não for cumprida?

Essa abordagem reduz drasticamente o risco de mapeamentos genéricos e ajuda a identificar riscos com impacto real.


2. Mapeamento de processos críticos

Nem todo processo merece o mesmo nível de atenção. A identificação de riscos deve focar nos processos críticos, ou seja, aqueles que:

  • Impactam diretamente clientes, reguladores ou acionistas
  • Manipulam recursos financeiros relevantes
  • Tratam dados sensíveis ou informações estratégicas
  • São exigidos por normas ou legislações específicas

O erro comum é mapear processos demais e analisar riscos de menos. A maturidade está em escolher bem onde aprofundar.


3. Entrevistas estruturadas com os donos do processo

Entrevistas continuam sendo uma técnica poderosa, desde que bem conduzidas. Conversas abertas e sem estrutura tendem a gerar listas extensas e pouco acionáveis.

Boas práticas:

  • Utilizar roteiros orientados a objetivos, riscos e controles
  • Evitar perguntas genéricas como “quais são os riscos da sua área?”
  • Focar em eventos indesejados, falhas recorrentes e pontos de dependência crítica

Mais importante do que ouvir tudo é saber filtrar.


4. Análise de eventos históricos e quase falhas

Eventos passados são excelentes indicadores de risco — mas devem ser interpretados corretamente.

Fontes relevantes:

  • Ocorrências registradas
  • Autos de infração, notificações e multas
  • Incidentes operacionais
  • Não conformidades em auditorias

O cuidado aqui é não transformar o histórico em um espelho do futuro. O foco deve estar em padrões, não em eventos isolados.


O que é importante identificar (e o que não é prioridade)

O que merece atenção prioritária

  • Riscos com potencial regulatório ou legal
  • Riscos que afetam diretamente a continuidade do negócio
  • Riscos com impacto reputacional significativo
  • Riscos associados a processos sem controle efetivo
  • Riscos recorrentes ou sistêmicos

Esses riscos, mesmo quando de baixa probabilidade, exigem visibilidade e governança.


O que não deve ser prioridade inicial

  • Situações extremamente remotas e sem impacto relevante
  • Riscos puramente operacionais de baixo valor agregado
  • Problemas pontuais já tratados por controles robustos
  • Listas extensas sem vínculo com objetivos ou obrigações

Mapear tudo é confortável, mas priorizar é o que diferencia uma gestão madura de riscos.


Como definir as áreas que devem ser mapeadas

A definição do escopo é uma decisão estratégica, não operacional.

Critérios recomendados:

  • Exposição regulatória da área
  • Grau de autonomia decisória
  • Volume financeiro ou operacional envolvido
  • Histórico de incidentes
  • Relevância para os objetivos estratégicos

Uma abordagem comum e eficaz é iniciar pelas áreas de maior exposição, evoluindo gradualmente para uma cobertura mais ampla conforme a maturidade do programa aumenta.


Quais resultados apresentar ao final do processo

A identificação de riscos não termina no mapeamento. Ela precisa gerar entregáveis claros, úteis e compreensíveis para diferentes públicos.

Resultados esperados:

  • Inventário de riscos priorizados e contextualizados
  • Vínculo claro entre risco, processo e objetivo
  • Classificação de riscos por impacto e probabilidade
  • Identificação de lacunas de controle
  • Base consistente para planos de ação e monitoramento

Para a alta administração, o valor está menos na quantidade de riscos e mais na clareza sobre onde estão as maiores exposições e o que está sendo feito a respeito.


Considerações finais

A identificação de riscos não é um exercício burocrático nem uma obrigação documental. Trata-se de um instrumento estratégico de governança, que orienta decisões, direciona investimentos e fortalece a função de compliance.

Mais do que identificar riscos, o desafio está em identificar os riscos certos, no nível certo e no momento certo.